Indulto de Trump a 11 condenados de colarinho branco mina, mais uma vez, o Departamento de Justiça do país.

Donald Trump, presidente dos EUA, faz as primeiras declarações após ser absolvido no processo de impeachment Joshua Roberts/Reuters/Arquivo O presidente Donald Trump executou a ameaça proferida dias atrás, quando assegurou ter o direito legal de interferir no sistema judiciário dos EUA.

Estimulado pela absolvição no julgamento do impeachment no Senado, ele usou a prerrogativa do perdão presidencial para indultar 11 criminosos de colarinho branco e ex-políticos, minando, mais uma vez, o Departamento de Justiça dos EUA. Presidentes americanos têm autoridade para comutar sentenças, mas costumam lançar mão do poder do perdão apenas no fim do mandato.

Foi assim com Clinton, que, em seu último dia no cargo, indultou o investidor Marc Rich, condenado por sonegação de impostos. Num esforço pela reforma do sistema penal, Obama respeitou uma lista elaborada pelo Departamento de Justiça para indultar mais de 200 condenados por posse ou distribuição de drogas. Como o habitual, Trump esnobou a tradição.

No primeiro ano de mandato, livrou da prisão Joe Arpaio, o controvertido xerife xenófobo do Arizona que fora condenado por desobedecer às ordens de um juiz federal, ao deter imigrantes com base no seu perfil racial. O fiel procurador-geral de Trump Biden em queda livre no páreo democrata O presidente Indultou também Lewis Libby Jr., o ex-assessor de Bush, condenado por perjúrio e obstrução da Justiça.

Como observou Aaron Blake, em artigo no “Washington Post”, a simpatia de Trump por um linha-dura da imigração e um teórico da conspiração, indicam semelhanças significativas entre ele e os beneficiados pelos indultos: seria como o presidente perdoar a si próprio. As ações de clemência anunciadas na terça-feira atingem o ex-governador democrata de Illinois Rod Blagojevich, condenado em 2010 a 14 anos, por tentar vender a cadeira de Barack Obama no Senado; o banqueiro Mike Milken, sentenciado por fraude e conspiração; e Edward DeBartolo Jr, ex-proprietário do time de futebol San Francisco 49ers, que se declarou culpado num escândalo de fraude no jogo. Roger Stone, ex-assessor e amigo de Donald Trump, ao ser preso em 1º de fevereiro de 2019 Pablo Martinez Monsivais/AP Photo Indicam que Trump não deve parar aí.

Especula-se que o próximo beneficiado será o amigo Roger Stone, seu ex-assessor e conselheiro da campanha de 2016, e pivô da cisão entre presidente e parte do Departamento de Justiça.

Trump considerou excessiva a pena de até nove anos proposta para Stone, por sete crimes – obstrução da Justiça, entre eles --, e teria pressionado o procurador-geral William Barr a revê-la. Quatro promotores abandonaram o caso, mais de dois mil ex-funcionários do departamento pediram a renúncia do procurador e alertaram sobre a ingerência presidencial na Justiça.

Barr se fragilizou e cogita deixar o governo, de acordo com o “Washington Post”. O presidente, contudo, persiste no seu direito de colocar-se acima da lei: “Estou autorizado a estar totalmente envolvido.

Na verdade, eu sou o principal policial do país”.

Em outras palavras, o perdoador-em-chefe de amigos e criminosos poderosos.