Diante de aumento do número de casos, presidente russo suspende referendo para mudar Constituição e orienta população a permanecer em casa.

Vladimir Putin visita hospital nos arredores de Moscou onde são tratados pacientes com Covid-19 Sputnik/Alexey Druzhinin/Kremlin/Reuters Até sábado passado, o número de casos do novo coronavírus na Rússia intrigava especialistas e levantava suspeitas de que o governo estaria escondendo a doença: apenas 306 infectados e nenhum morto no país com 146 milhões de habitantes, que faz fronteira com a China e alguns países da Europa. Quatro dias depois, com 658 casos notificados, o presidente Vladimir Putin se rendeu à pandemia e adiou o referendo de 22 de abril sobre a mudança na Constituição -- seu projeto político, que, se aprovado, lhe permitirá ficar no cargo até 2036.

Até então, o governo dizia ter a situação sob controle, sem necessidade de impor distanciamento social aos russos. Nesta quarta-feira, contudo, o panorama mudou.

“Toda economia global está sob ameaça”, advertiu Putin, ao orientar a população a permanecer em casa.

Há duas décadas no comando da Rússia, o presidente-centralizador vestiu roupas especiais e usou um respirador para visitar um hospital que atende doentes contaminados pela pandemia no subúrbio de Moscou.

E depois anunciou um pacote de benefícios com isenção de impostos e empréstimos a empresas afetadas pela pandemia.

A baixa incidência do vírus no país, enquanto a doença se alastrava na China, na Europa e nos EUA, reavivou nos russos o fantasma do desastre nuclear de Chernobyl, em 1986 na Ucrânia, acobertado pelo regime soviético.

O governo creditava a baixa taxa do Covid-19 ao elevado número de testes -- mais de 100 mil -- mas, ao mesmo tempo, suscitava ceticismo nas redes sociais.

O alerta de que o número de casos “era significativamente maior” do que os notificados pelo governo veio do prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, que também chefia a força-tarefa sobre o novo coronavírus na Rússia. A oposição denuncia que os dados apresentados pelo governo são irreais e maquiados.

A falta de transparência reacende a sombra da herança soviética.

Se, por um lado, a doença inicialmente não se alastrou como em outros países, por outro, o número de casos de pneumonia aumentou 37% no último mês, o que pressupõe possíveis erros no diagnóstico.

Apesar do agravamento da pandemia no mundo, Putin vinha relutando em adiar o referendo que decidirá se o limite de reeleições será ampliado.

O presidente, finalmente, cedeu.

Mas deixou claro que o referendo foi apenas suspenso enquanto o país concentra esforços para debelar o novo coronavírus.